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quinta, 9 de setembro de 2010
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Microbiologia
MICROBIOLOGIA: Métodos Bacteriológicos e Micológicos para a Coleta de Amostras Clínicas
 
Prof. Dr. Aracaty Silva Sobrinho -  Diretor Científico
 
         O desenvolvimento sócio-econômico criou condições que modificaram as relações entre hospedeiro e a flora microbiana, alterando sensivelmente a etiologia e a prevalência das doenças infecciosas.
         Diminuiu, em todo o mundo, a mortalidade de doenças provocadas por patógenos primários, muito embora patógenos relativamente raros estejam se tornando mais freqüentes como causa de infecção no homem.
         Aumentaram também as infecções produzidas por microrganismos considerados não patogênicos ou apenas potencialmente patogênicos (oportunistas).
         Reconhece-se que a maioria dos microrganismos da flora normal do homem podem provocar doença, dependendo mais do hospedeiro do que de alguma característica especial adquiridas pela célula bacteriana.
         Com amplo suporte na literatura médica, encontramos o conceito de que o diagnóstico das infecções bacterianas deve ser confirmado pelo isolamento e identificação do agente etiológico, bem como o de que a terapêutica antibiótica é racionalmente orientada e controlada por testes de sensibilidade.
         Para tanto exige-se um laboratório de bacteriologia, capaz de identificar corretamente os microrganismos relacionados à patologia humana e de fornecer resultados com a maior especificidade e reprodutividade.
         Contudo os resultados bacteriológicos dependem essencialmente da coleta e do transporte das amostras a serem analisadas. Às vezes, essas amostras são colhidas em precárias condições de assepsia, por pessoal inadequadamente treinado, não podendo os resultados fornecidos pelos laboratórios ser melhores do que as amostras recebidas para exame.
         Para o laboratório de micologia a coleta das amostras devem ser realizadas por pessoal treinado, devendo-se sempre inquerir ao paciente sobre o uso de medicação antifúngica. Caso esteja utilizando esse tipo de medicação. O paciente deve ser orientado para suspendê-la por um período de 15 dias, se a medicação for de uso tópico, e por um mês, quando se tratar de drogas de uso sistêmico; somente após esse período de abstinência da medicação fúngica é que a coleta do espécime clínico deve ser realizada.
         Na micologia médica a coleta dos diversos materiais clínicos apresentam características peculiares quanto ao seu procedimento, razão pela qual estaremos apresentando estas rotinas.
 
 
INSTRUÇÓES PARA PROCEDIMENTO ESPECÍFICOS EM BACTERIOLOGIA:
 
A. Cultura de Ferimento ou Abscesso
 
1.     Lave a área com um algodão estéril umedecido em salina estéril.
2.      Desinfete a área com uma solução de povidine-iodine ou iodo.
3.      Se o abscesso não se rompeu espontaneamente, um médico irá abri-lo com um bisturi estéril.
4.      Limpe o primeiro pus.
5.      Toque um swab estéril no pus, cuidando para não contaminar o tecido circundante.
6.      Recoloque o swab em seu recipiente.
 
B. Cultura de Ouvidos
 
1.     Limpe a pele e canal auditivo com tintura de iodo a 1%.
2.      Toque a área infectada com um swab de algodão estéril.
3.      Recoloque o swab em seu recipiente.
 
C. Cultura dos Olhos
 
1.     Lave o olho com uma solução salina estéril.
2.     Colete o material da área infectada com um swab.
3.     Recoloque o swab em seu recipiente.
4.     Em situações mais extremas, a coleta é realizada com auxílio do oftalmologista, anestesiando o olho com uma aplicação tópica de uma solução anestésica estéril.
 
D. Hemocultura
 
1.     Feche as janelas da sala para evitar contaminação.
2.     Limpe a pele em torno da veia selecionada com um algodão em álcool a 70% seguida de preparação iodada.
3.     Coletar o sangue e injetar imediatamente no frasco de cultivo.
4.     Coletar o sangue antes da administração de antimicrobianos.
 
E. Urocultura
 
1.     Dê ao paciente um recipiente estéril.
2.     Instrua o paciente a coletar uma amostra do jato médio, desprezando o primeiro jato, a fim de que esta elimine as bactérias estranhas da flora cutânea.
3.     Uma amostra de urina pode ser armazenada sob refrigeração (4-6ºC) por até 24 horas.
 
F. Coprocultura
 
1.     Fezes recente em frasco estéril (com tampa hermética) ou em meio de Cary-Blair.
2.     Colher preferencialmente porções de fezes com muco, sangue ou pus.
3.     A coleta deve ser realizada antes do início da terapia antimicrobiana; o rendimento é maior se os antimicrobianos forem suspensos 3 dias antes da coleta.
 
G. Cultura de Escarro
 
1.     Uma amostra matinal é melhor, pois os microrganismos se acumulam enquanto o paciente dorme.
2.     O paciente deve lavar sua boca extensamente para remover os alimentos e a flora normal (não utilizar pasta dental).
3.     O paciente deve tossir profundamente e expectorar em um frasco de vidro estéril de boca larga.
4.     Deve-se ter cuidado para evitar contaminação dos atendentes.
5.     Em casos como a tuberculose em que há pouco escarro, a aspiração estomacal pode ser necessária.
6.     Lactentes e crianças tendem a deglutir o escarro. Uma amostra fecal pode ser de algum valor nestes casos.
 
 
INSTRUÇÓES PARA PROCEDIMENTO ESPECÍFICOS EM MICOLOGIA:
 
A. Escamas de Pele
 
  1. Após o exame visual da lesão, esta deverá ser submetida a uma rigorosa anti-sepsia com álcool isopropílico a 70%, objetivando minimizar as contaminações secundárias e sujidades.
  2. A seguir, com o auxílio de uma cureta dermatológica ou lâmina de bisturi sem o fio de corte, ou ainda, com uma lâmina de microscopia recém-quebrada ao meio, raspam-se vigorosamente as bordas de todas as lesões cutâneas ativas distribuídas pelo corpo.
  3. Caso o paciente apresente várias lesões, deve-se coletar material das lesões semelhantes em um único bloco de amostra (no mínimo de três lesões).
  4. O material colhido é acondicionado em pequenas placas de Petri (60x15mm) estéreis.
  5. Em caso de suspeita de Pitiríase versicolor, o material deve ser coletado com lâmina, fazendo-se movimentos de fricção e, posteriormente, adere-se sobre a área escarificada um pedaço de fita adesiva transparente; que em seguida é removida e colada à superfície de uma lâmina de microscopia. O material colhido dessa forma não se presta para realização de cultura.
B. Unhas
 
1.     Para a coleta de material das unhas, devem-se sempre ter à mão tesouras de várias dimensões, limas, alicates de unha e diversas curetagens dermatológicas.
2.     Procurar sempre retirar material da região de progressão e confluência do tecido são com o tecido doente; assim, nas onicomicoses que começam na parte livre da unha, deve-se desprezar toda a hiperceratose formada na parte mais distal e procurar, após a remoção do material indesejado, atingir regiões mais adentro da matriz ungueal.
3.     As onicomicoses acompanhadas de paroníquia, deve-se coletar também o pus, com o auxílio de um swab.
4.     A lâmina da unha (parte superior) também pode ser utilizada como material para pesquisa de fungos; para isso, deve-se raspar vigorosamente, com uma cureta ou com uma lima, a região de confluência do tecido doente com o tecido saudável, aprofundando o máximo possível na matriz da unha.
5.  Sempre que uma ou mais unhas estiverem comprometidas, deve-se colher       
     individualmente cada material.
 
C. Pêlos e Cabelos
 
1.     É de fundamental importância realizar esta coleta de forma orientada, visando retirar os pêlos que apresentem maior probabilidade de estar infectados, otimizando assim o isolamento de fungos dermatofílicos.
2.     Os pêlos mais representativos da infecção dermatofítica são os que ficam localizados nas regiões de alopécia (áreas de rarefação de pêlos), os quais devem apresentar-se quebrados na região de emersão do folículo piloso. Sendo assim, os pêlos tonsurados devem ser removidos de dentro do folículo piloso, por arrancamento, com o auxílio de uma pinça flambada.
3.     Nas tinhas inflamatórias do couro cabeludo e barba, recomenda-se que o paciente faça uma antibioticoterapia prévia, objetivando maximizar o isolamento primário, isto é, sem contaminação bacteriana (Para tanto, deve-se recorrer ao médico do paciente). Caso não seja possível tomar essa conduta, deverá ser feita uma rigorosa anti-sepsia no ato da coleta.
 
D. Urina
 
1.     Após cuidadosa degermação da região genito-urinária externa com água e sabão neutro, colher cerca de 20 a 30ml do jato intermediário da urina e acondicionar em frasco estéril.
2.     Não utilizar urina armazenada em frasco ou bolsa do tipo coletor, ligado a uma sonda vesical, quer se trate de sistema aberto ou fechado.
 
E. Fezes
 
1.     O material fecal destinado à pesquisa de leveduras deve ser colhido em frasco estéril.
2.     Em caso de necessidade, pode-se colher a amostra pela aplicação de um swab retal profundo.
3.     Em decorrência da heterogeneidade microbiana das fezes e da competição pelos substratos orgânicos, com prejuízo para alguns microrganismos, não se aconselha o armazenamento desse material, devendo este ser processado num período máximo de 2 horas.
 
F. Escarro
 
1.     As amostras de expectoração natural devem ser colhidas após rigoroso saneamento bucal e acondicionadas em frasco estéril.
2.     As amostras de material pulmonar colhido por aspiração traqueobrônquica, lavado brônquico ou lavado broncoalveolar são os melhores espécimes clínicos para o isolamento de fungos.
3.     Quando a avaliação for para patógenos oportunistas, como Candida sp, observa-se que esta análise fica difícil de ser realizada, em decorrência da contaminação do material clínico com leveduras da microbiota da cavidade oral.
 
G. Líquido Cefalorraquidiano
 
1.     A coleta do líquor, por ser através de punção lombar, deve-se ser colhido pelo médico assistente ou por profissional qualificado.
2.     A punção é feita seguindo a técnica padrão de punção lombar, devendo-se coletar um volume de 3 a 5 ml, acondicionadas em tubo estéril e em temperatura ambiente.
 
H. Pus e Líquidos Patológicos
 
1.     O pus das lesões supurativas deve ser colhido da forma mais asséptica possível, após anti-sepsia com álcool a 70% ou álcool iodado.
2.     Outros materiais, como líquido sinovial, ascítico e pleural, devem ser colhidos, também, por punção, após rigorosa anti-sepsia da pele; volume mínimo de 1ml.
 
I. Conjuntiva e Córnea
 
1. Realizar raspagem ou debridação das partes, em caso de tecido necrosado.
2. A coleta desse tipo de material, particularmente de córnea, só deve ser
    realizada por profissionais qualificados e em ambiente adequado.
 
J. Mucosas, Orifícios Naturais e Secreções Diversas
 
1.     Colher com swab estéril, no mínimo, duas amostras de cada lesão encontrada (exame direto e cultura).
2.     Se o material não puder ser enviado imediatamente ao laboratório, devem-se colocar os swabs em solução fisiológica e mantê-los em refrigerador por um período máximo de 24 horas.
3.     Boca: se a lesão for vegetante ou ulcerada, deve-se fazer uma biópsia ou raspagem com uma cureta dermatológica.
4.     Ânus: se a lesão for escamosa, devem-se coletar as escamas da periferia da lesão; em caso de lesão ulcerada, deve ser feita curetagem ou biópsia.
5.     Vagina: coletam-se dois swabs da região do fundo de saco e dois swabs da endocérvix; para exame a fresco e cultura.
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
 
 
·        CDC & NIH. Biosafety in Microbiological and Biomedical Laboratories, 2ºed. GPO, 1988.
·        Koneman, R. Micologia: Prática de Laboratório, 3ª ed. Buenos Aires: Editorial Médica Panamericana, 1987.
·        Sidrim, J.J.C.&Moreira, J.L.B. Fundamentos Clínicos e Laboratoriais de Micologia Médica. 1999, Koogan.
·        Tortora, G.J., Funke, B.R.& Case, C.L. Microbiologia, 6ªed. 2002, Artmed.
·        Zanon, U. Princípios Básicos para o Diagnóstico Etiológico das Doenças Infectuosas Provocadas por Bactérias. Neves,J. Diagnóstico e Tratamento das Doenças Infectuosas e Parasitárias, 1978, Koogan.
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